Percepção Requer Envolvimento

Um dos grandes nomes do underground brasileiro, o trio Los Pirata dá continuidade ao sucesso de crítica e público que permeia sua carreira com um ótimo segundo disco, La Re-vuelta. O guitarrista JOÃO ERBETTA que na banda assume o personagem Paco Garcia fala sobre as ousadias sônicas e a seriedade por trás da brincadeira.
Por Regis Tadeu Foto Cecília Laszklewicz

Pense em tequila, surf music, punk, blues, country, rock dos anos 50, música latina, Pixies, Beatles e Tito & Tarântula, não necessariamente nesta ordem, tudo isso batido em um liquidificador sônico. Pensou? Então você agora tem uma leve idéia do som do trio mais insano e legal do Brasil nos dias de hoje, capaz de lotar seus shows seguindo na contra-mão da cena indie nacional, caracterizada por músicos muitas vezes medíocres e cheios de pose pseudo-cool.
Depois de um incensado disco de estréia o interessantíssimo Em Uma Onda Neo-Punque ­-, o grupo ressurge com um fatídico (e ótimo) segundo álbum. Em cada uma das faixas de La Re-Vuelta é possível notar um descompromisso guitarrístico, como se a maneira de tocar de João Erbetta (ou Paco Garcia, como quiser) estivesse explicitamente ligada ao astral divertido das composições algo muito evidente La Telepatia, És Ilusion e Pancho.

O curioso é que tal conexão não tem regras definidas. Muitas vezes, chego com um riff pronto para a música, mas pode ser que guitarra só aconteça nos ensaios ou só na hora da gravação. La Telepatia demorou pra ficar pronta, foi finalizada só na gravação, enquanto Pancho, até onde consigo lembrar, veio numa tacada só. De maneira geral, é mais divertido ir finalizando os arranjos com a banda. Na teoria, a prática é ao-contrário, explica o guitarrista.
Sur é a melhor canção em portunhol/castalhano que o Paralamas nunca conseguiu compor e aquela em que o som da guitarra de João melhor exprime o seu estilo como instrumentista. Não é à toa que é uma de suas favoritas.
É uma ode explícita às minhas raízes sul-americanas, mais especificamente ao Uruguai – minha mulher é de Montevidéu – e Argentina. Tem um pintor uruguaio chamado Torres Garcia que fez um mapa sul-americano de cabeça para baixo, invertendo a relação sul-abaixo, norte-acima, que é muito legal, é uma imagem muito forte.

Realmente quando as coisas estão confusas, eu escapo para o sul a fim de me encontrar com lobos-marinhos no litoral uruguaio. Em relação ao som, não existe muita pesquisa, literalmente falando. Procuro estar sempre de ouvidos atentos e escutar muita música quando não estou gravando. Então, alguma coisa sempre aparece como referência. Sur tem uma coisa de riff grave e power chords meio Pete Townshend no refrão – alguém disse isso a mim, eu não tinha me ligado. Isso é uma coisa necessária quando se está em um trio: preencher certos espaços.
O Los Pirata vem sendo elogiado pela crítica e pelo público especializado desde o seu surgimento, mas falta algo para que o som da banda, com letras em portunhol safado – não se engane: isso é um elogio – atinja uma maior parcela do público. Na opinião do guitarrista, o problema não está especificamente no preconceito contra letras fora do eixo português-inglês, na distribuição dos discos ou no fato que a Internet se transformou em algo mais importante que uma loja de discos, e sim na falta de mercado. O Brasil é baseado em dois ambientes musicais: o mundo faustão/popularesco e o resto.

Este último é muito fragmentado e historicamente órfão. Não me entenda mal, não há nada de errado no mundo popularesco, cada um tem a liberdade de ouvir o que quiser, consumir o que quiser, mas falta dinheiro em circulação para as pessoas consumirem discos, shows, livros e TV a cabo, falta estrutura para fazer uma turnê pelo país, falta dinheiro para custos e é isso o que aflige diversas camadas desse resto cultural/musical. Acho que o Los Pirata é muito estranho para ser popular. Não acho que as pessoas tenham obrigação de gostar de algo tão esquisito (risos), mas acho que o Brasil acaba perdendo boas coisas que rolam nos países vizinhos pelo problema da língua, e isso é um grande azar nosso. Tem muita coisa rolando, por exemplo, na Argentina, Chile, Uruguai e México, e a gente poderia estar mais junto nessa onda, trocando experiências. É uma pena que o Brasil ainda se ache auto-suficiente em termos culturais.

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